FATTI & RACCONTI

Sacaneando meu amigo

  

A amizade entre homens costuma ser sincera e duradoura. Somente situações muito graves conseguem acabar com uma amizade. Até mesmo uma briga na base da “porrada” pode afastar dois amigos por algum tempo, mas, geralmente, depois tudo volta ao normal. Entre os casos realmente sérios podemos citar traições ou dinheiro emprestado que nunca é devolvido.

Os homens adoram pregar peças uns nos outros. Gostam de ver os amigos passando vergonha e, no fim, todos acabam rindo juntos. Depois, na primeira oportunidade, vem a revanche.

A brincadeira que fiz com meu amigo quase colocou fim em uma amizade de décadas. O sujeito ficou tão chateado que só não me bateu porque consegui correr mais rápido do que ele. O mesmo não posso dizer da esposa dele, que comprou a briga e passou meses sem falar comigo. Mas, antes de contar a sacanagem, preciso explicar como tudo começou.

Meu amigo era daqueles que sempre convidava para festas, e eu fazia o mesmo. Participávamos das mesmas atividades sociais, clubes de serviço e outras confraternizações. Naquela época também fazíamos parte de um clube de jipeiros, onde nos divertíamos em trilhas cheias de lama nos finais de semana.

Obviamente, para participar dessas aventuras era necessário ter um veículo 4x4 off-road. Normalmente, esses carros eram usados — para não dizer velhos. E, sendo velhos, viviam na oficina.

As trilhas aconteciam quase sempre aos finais de semana. Na segunda-feira, muitos daqueles veículos já estavam novamente no mecânico, para a alegria dos donos das oficinas. Não era questão de revisão preventiva; eles quebravam mesmo. Era comum ver um jipeiro rebocando outro no meio da lama.

Os gastos com manutenção eram grandes, mas todos concordavam que saía mais barato do que remédio para estresse. Afinal, diversão deixa as pessoas felizes e, consequentemente, menos doentes.

O meu amigo, personagem desta história, resolveu comprar um Lada Niva para se divertir nas trilhas. O veículo havia sido importado da Rússia na década de 1990, durante o governo Collor. Diziam as más línguas que essa parceria com os russos teria sido um dos motivos do “impedimento” do presidente.

A Lada fabricava carros pensando nas péssimas estradas russas, que não eram muito diferentes das brasileiras. Collor acreditava que os veículos fariam sucesso por aqui. Porém, a importação durou pouco e quem comprou um daqueles carros acabou se dando mal.

Os nivas usados passaram a ser vendidos — ou praticamente doados — a preço de banana. Foi aí que meu amigo enxergou a oportunidade de fazer trilhas gastando pouco. O que ele não sabia era que o barato sairia caro.

FOTO COM LEGENDA O lada que quase destruiu uma amizade.

No dia em que comprou o carro, já me ligou animado para mostrar a novidade. Fui até a casa dele testar a “máquina”. Era um sábado chuvoso. Na primeira tentativa, o Niva não pegou. Empurramos o carro por vários metros e nada. O veículo acabou ficando parado na beira da estrada até segunda-feira, quando precisou ser guinchado para uma oficina.

Nas trilhas era sempre a mesma história: quebrava, atolava, não ligava… Enfim, às vezes parecia melhor deixá-lo em casa.

Com o tempo, os trilheiros foram abandonando a brincadeira e vendendo seus carros. Meu amigo, porém, não conseguia vender o Lada. Todo mundo já tinha se desfeito dos seus veículos, menos ele.

Sugeri então que anunciasse o carro em um aplicativo de vendas. Ele gostou da ideia, mas ninguém demonstrava interesse. Inclusive colocou um preço mais alto, pensando em negociar depois caso aparecesse algum comprador. Acho que o pessoal não queria nem de graça.

Foi aí que resolvi pregar uma peça nele.

Criei dois perfis falsos no mesmo aplicativo onde ele havia anunciado o carro. Em um deles, me passei por um sujeito de Brusque extremamente interessado no Niva. Disse para ele reservar o veículo porque eu iria buscá-lo em breve.

No outro perfil, falei muito mal do carro. Disse que aquilo era uma verdadeira tranqueira, mas que, para ajudá-lo, eu faria uma proposta. Ofereci uma galinha choca com dez pintinhos, um porco, um ventilador Britânia, uma televisão de tubo e ainda quinhentos reais para ajudar no transporte.

Agora era só esperar a reação.

Alguns dias depois, convidei meu amigo e a esposa para uma festinha na minha casa. Eles chegaram, tomamos algumas cervejas e fiquei esperando que ele comentasse sobre as propostas. Mas nada.

Então perguntei casualmente se alguém havia entrado em contato pelo anúncio.

Ele respondeu animado que tinha recebido duas propostas. Perguntei quais.

Contou primeiro sobre o interessado de Brusque. Disse que a oferta era ótima e que nem precisaria dar desconto. Estava feliz da vida. Naquele momento comecei a sentir um pouco de remorso pela brincadeira. Mal sabia ele que aquela proposta nunca existiu.

Perguntei então sobre a segunda oferta.

Ele respondeu que devia ser sacanagem de alguém. Tinham oferecido um porco, uma galinha, um ventilador e uma televisão velha. Certamente era uma brincadeira de mau gosto.

Naquele instante não consegui mais segurar o riso. Comecei a gargalhar sem parar, a ponto de quase engasgar com a cerveja.

Foi então que ele desconfiou:

— Foi tu que fez essa oferta, seu filho da p*?

Confessei imediatamente. E ainda completei dizendo que a proposta de Brusque também era minha.

Jamais vou esquecer a expressão de tristeza no rosto do meu amigo.

Levantei da cadeira já preparado para correr, imaginando que ele fosse me bater. Foi nesse momento que a esposa dele apareceu, sem ter ouvido a conversa.

Ela chegou me repreendendo:

— Vocês precisam parar de falar mal do nosso Lada!

E continuou dizendo, toda feliz, que eles tinham recebido uma proposta de Brusque e que o carro praticamente já estava vendido.

Eu não conseguia parar de rir enquanto meu amigo tentava explicar para a esposa que tudo não passava de uma brincadeira.

No começo ela achou que a piada era apenas sobre a oferta da galinha, do porco e do ventilador. Mas depois percebeu que a proposta de Brusque também era falsa.

Confesso que me arrependi profundamente ao ver o desânimo daquela mulher. Ela já tinha até planos para gastar o dinheiro da venda.

Quando finalmente entendeu toda a história, ela entrou para dentro da casa sem dizer muita coisa.

Ficamos eu e meu amigo sentados, cada um com um copo de cerveja na mão. Eu arrependido. Ele com vontade de partir para a briga.

Como falei no início, a amizade entre homens resiste a quase tudo.

Mas confesso que essa balançou.

Quanto à esposa dele… bem… essa demorou bastante para voltar ao normal.

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