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Vamos falar de uma grande mulher que teve uma grande missão para o povo ascurrense. Das mãos da parteira Julia Bonelli nasceram milhares de ascurrenses. Estamos falando de em uma época onde os serviços médicos eram um luxo para poucos e só existiam nas maiores cidades do Vale do Itajaí. As mulheres só davam à luz nas mãos de parteiras como dona Júlia Bonelli.
Dona Julia Bonelli é assim chamada por todos os habitantes da região. Nasceu em Luiz Alves no dia 13.08.1888 e faleceu no Bairro São Pedrinho em Rodeio às 16h do dia 03.06.1987 de parada cardíaca. Faltavam apenas dois meses para completar 99 anos. Dona Júlia era filha dos imigrantes italianos João Batista Bizatto e Margarida Pelegini Bizatto. Seus avós paternos eram Giuseppe Bizatto e Giuliana Bizatto e avós maternos Faustino Dei Pelegini e Domenica Pelegini. O que chama a atenção é que a certidão de nascimento de Dona Júlia é datada de 26 de setembro de 1974. O registro foi feito no cartório Moser em Ascurra. Dona Julia ainda não tinha a certidão de nascimento até mudar-se para Ascurra. Está enterrada no cemitério municipal de Ascurra, na quadra F.
Dona Júlia casou-se com João Bonelli no dia 10 de outubro de 1908 em Luiz Alves. João tinha 29 anos e trabalhava na agricultura. João nasceu na Itália e era filho de José Bonelli e Maria Bonelli. Julia era doméstica e tinha 20 anos quando se casou. João faleceu muito jovem ainda em Luiz Alves no dia 31 de agosto de 1910 com 31 anos. Está sepultado no cemitério São João na localidade de Braço Serafim em Luiz Alves.
Julia e João tiveram dois filhos: José Francisco Bonelli e Maria Bonelli. Posteriormente a família mudou-se para o bairro Belchior em Gaspar. De lá dona Júlia com a filha, veio para Rodeio no bairro Nova Brasília e depois veio sozinha para Ascurra. Na nova cidade ela teve convivência marital com o imigrante italiano Pedro Bonetti. Morou com ele por algum tempo em uma residência onde é hoje a LDL Turismo. Mais precisamente, na BR 470, divisa do centro com o bairro Estação. Depois ficou viúva novamente e mudou-se para a residência de Jacó Finardi que ficava no início da rua Aderbal Ramos da Silva.

José Francisco Bonelli, filho de dona Júlia, morava em São Lourenço de Fátima no Mato Grosso e voltou com a família para Ascurra. Precisava cuidar da mãe que já era idosa e morava sozinha. Recebeu carta da mãe pedindo que fizesse isso. Então comprou uma residência de alvenaria de Amândio Dalfovo no bairro estação. Mais precisamente na Rua Indaial próximo a creche que leva o nome de Dona Júlia Bonelli. O contrato da venda é datado de 10 de maio de 1974. Porém a mudança ocorreu no dia 25 de julho de 1975. Beppi Bonelli como era conhecido em Ascurra, faleceu no dia 11 de julho de 2003 com 93 anos em Timbó onde morava. Foi sepultado em Ascurra no cemitério municipal.
Dona Julia passou os últimos três anos de sua vida morando com a filha Maria no bairro São Pedrinho em Rodeio. Isto ocorreu no momento em que essa filha havia ficado viúva. Julia ainda trabalhava com a filha capinando cana. Morreu em casa e estava doente a dez dias e não conseguia comer. Maria a filha também era parteira. Fez curso em São Paulo e fez mais de mil partos, segundo Ana Guzava sua nora. As visitas eram feitas em um dos seis cavalos que a família tinha. Cecília, esposa de José, o outro filho de Julia, também era parteira e fez curso em Florianópolis.
Dona Júlia foi homenageada em Ascurra em uma missa carregando o milésimo bebê que nasceu de suas mãos. Não sabemos quantos mais partos ele fez na cidade. Segundo sua neta Mirian, dona Julia contou até os 1000 e depois não contou mais. Algumas pessoas falam em 1300, outras 2500 e já ouvimos também relatos falando em um número maior ainda.
Dona Julia tinha uma espécie de maternidade que ficava no prédio de Mario Dalpiaz ao lado da prefeitura de Ascurra. Neste local existia uma padaria na parte inferior e na superior um quarto onde eram feitos os partos. Dona Julia usou este espaço no período final da década de sessenta até o final da década de setenta. Porém também eventualmente fazia partos nas casas das pessoas. Como pagamento, quando recebia algo, era uma galinha, um porco ou qualquer outro presente. Quando recebia galinha costumava fazer uma sopa para as mamães. Ali ela também auxiliava a família Dalpiaz na padaria. Nos fundos do prédio, Mario Dalpiaz costumava matar porcos. Dona Julia auxilia no preparo da carne.
Além de parteira, Dona Júlia era também benzedeira. As pessoas da cidade tinham muita fé e acreditavam nas suas rezas. Dona Júlia era muito religiosa e frequentava as missas quase diariamente. Inclusive foi atropelada por um veículo quando cruzava a rua em frente à sua casa no bairro Estação. A família ia rezar o terço na casa da frente. O atropelamento causou uma internação de três dias no hospital em Rodeio. Ela contava com 92 anos neste episódio.
Dois netos de dona Julia contribuíram com toda a nossa pesquisa: Walter Guzava de Rodeio nos conta que, em Gaspar, onde morava com a mãe Maria, trabalhavam na roça. Seu pai, Estevam, transportava produtos da terra da localidade de Canoas no Belchior até Blumenau. Toda a venda era feita na sua carroça. Disse também que Dona Júlia tinha mais uma irmã, mas esta permaneceu no Belchior. Lembra que quando morreu dona Julia, ele trabalhava como pedreiro em uma casa ao lado. Disse que a maleta de dona Júlia onde ela tinha os utensílios para fazer parto, foi descartada no mato. Hoje percebe a importância da mesma e devia ter preservado. Mirian Bonelli, a outra neta, senhora muito simpática nos mostrou várias fotos de sua “nonna” e também vários documentos que nos ajudaram na pesquisa. Miriam lembra que Dona Júlia tinha como hobby capinar. Sua comida preferida era carne de porco. Muitas outras pessoas também contribuíram com informações desta que pode ser considerada uma santa.
Dona Júlia foi homenageada em Ascurra pelo poder público. Tem uma rua no bairro Estação que leva o seu nome. Também temos o Centro de Educação Infantil Dona Júlia Bonelli no mesmo bairro. Este foi inaugurado em 1990. Dona Júlia foi também homenageada na missa do centenário da imigração italiana em 1976. Todas estas homenagens mostram o respeito do povo ascurrense e poder público por esta senhora.
Por todas as entrevistas que fizemos para obter informações de Dona Julia, temos a certeza de que ela era uma santa. Os depoimentos de quem a conheceu são unânimes em falar de sua religiosidade, simpatia, simplicidade e comprometimento. Muitos depoimentos de pessoas mais velhas orgulhosas de ter nascido das mãos dela. Outros mais jovens lembrando que familiares também vieram ao mundo pelas mãos dessa mulher. Certamente Dona Júlia Bonelli merece ser lembrada por toda a eternidade. Uma santa que deixou sua marca na cidade de Ascurra.
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