FATTI & RACCONTI

O Jogo da Mora

   

Os imigrantes italianos que colonizaram Santa Catarina trouxeram consigo uma rica herança cultural. Seus usos e costumes permanecem vivos e, em muitas regiões de colonização italiana, continuam sendo preservados e valorizados.

Quando falamos da cultura italiana, logo nos vêm à mente os cantos, as danças, os dialetos, as histórias contadas pelos mais velhos com base em suas experiências, as bebidas típicas e, principalmente, a culinária preparada pelas “nonas”, sempre cercadas por filhos e netos. Talvez essa seja a manifestação cultural mais marcante e afetiva.

Quem não aprecia uma boa macarronada ou uma pizza? Ou uma polenta “brustolada” acompanhada de queijo e ovos? E ainda o “tortei”, a lasanha, o nhoque, a calabresa e tantas outras delícias? Sem falar em um bom vinho, especialmente nos dias frios de inverno, harmonizando perfeitamente com o prato favorito. Os dialetos italianos também permanecem vivos, sobretudo nas comunidades do interior. Em Ascurra, por exemplo, o italiano ainda é amplamente utilizado entre amigos e familiares.

Outro legado dos colonizadores, embora menos lembrado, são os jogos trazidos pelos imigrantes. O mais popular deles talvez seja a bocha. É difícil encontrar um clube sem uma cancha sempre movimentada. Muitos bares também possuem suas canchas, frequentemente ocupadas por jogadores e apreciadores do esporte. Torneios são realizados regularmente, mantendo viva essa tradição.

Também merecem destaque os jogos de cartas, como o “cinquilho”, a “briscola”  e o “tresette”, ainda praticados em algumas localidades do interior de Ascurra. Entre os jogos de baralho, o mais popular é, sem dúvida, o truco. Embora não seja de origem italiana, sua difusão na região foi fortemente influenciada pelos descendentes de italianos. Enquanto o truco costuma atrair os mais jovens, os demais jogos são mais comuns entre as gerações mais antigas.

Entre essas tradições, existe um jogo que encanta os ascurrenses: a Mora. Durante algum tempo, essa prática esteve próxima do desaparecimento em Ascurra. Seu resgate deve-se, em grande parte, ao morador do bairro Oitenta, Sr. Joaquim Possamai. Apaixonado pelo jogo, Joaquim dedicou-se a mantê-lo vivo, jogando frequentemente com amigos. Sua dedicação despertava a curiosidade dos mais jovens, que aprendiam e se encantavam com a brincadeira. Por isso, ficou conhecido como o “Professor da Mora”.

O jogo da Mora pode ser comparado a um jogo de palitos, porém os participantes utilizam os dedos das mãos. O objetivo é adivinhar a soma total dos dedos mostrados simultaneamente pelos jogadores. Geralmente, é disputado em duplas. Para uma partida, basta uma mesa resistente, um juiz para marcar os pontos e muita disposição para gritar. Trata-se de um jogo rápido, intenso e bastante barulhento. Um detalhe importante é que os números devem ser anunciados em italiano. Na forma tradicional do jogo, o juiz registra a pontuação utilizando os dedos das próprias mãos.

Segundo o historiador Doralécio Soares, membro da Comissão Catarinense de Folclore, a Mora teria surgido nas prisões italianas. Os detentos, buscando uma forma de entretenimento que não exigisse equipamentos, criaram um jogo que necessitava apenas de espaço, voz e os dedos das mãos. Com o passar do tempo, a brincadeira se difundiu por diferentes camadas sociais, especialmente nas áreas rurais da Itália.

No Vale do Itajaí, destaca-se a figura de um dos principais responsáveis pela preservação da Mora em Santa Catarina: o empresário Moacir Bogo, já falecido. Natural da localidade de Ribeirão Café, em Rio do Oeste (SC), e residente em Joinville, Moacir incentivou a realização de torneios municipais e intermunicipais, reunindo participantes de cidades como Rodeio, Ascurra, Rio do Oeste, Laurentino, Rio do Sul, Nova Trento, entre outras.

Campeões da Olia 2026 no jogo da Mora: Primeiro lugar Rosimar Agostini e Alessandro Zonta. Segundo lugar Hutson Poffo e Everton Dagnoni. Terceiro lugar Toni Buzzi e Gustavo Volpi.

Em Ascurra, a popularidade da Mora consolidou-se com sua inclusão na OLIA (Olimpíada Interbairros de Ascurra), competição que reúne diversas modalidades esportivas e recreativas disputadas entre os bairros do município. A Mora tornou-se uma das atrações mais aguardadas do evento. Seu caráter vibrante e barulhento desperta a curiosidade e atrai a atenção do público. Contudo, a prática não se limita à OLIA. O jogo também é comum em encontros de amigos, festas comunitárias, bares e outros eventos sociais.

Jogadores no barulhento enfrentamento!

Outras regiões de Santa Catarina também preservam essa tradição. No norte do estado, cidades como Joinville e Jaraguá do Sul mantêm grupos de praticantes. O mesmo ocorre no sul catarinense, onde muitos municípios possuem forte influência da imigração italiana.

Preservar a cultura de um povo é uma das maiores demonstrações de respeito aos antepassados que ajudaram a construir nossa região. Os imigrantes italianos não deixaram sua terra natal por escolha, mas por necessidade. Após a unificação da Itália, o país enfrentou sérias dificuldades econômicas, levando milhares de famílias a buscar oportunidades em outras partes do mundo.

O Brasil surgiu como uma alternativa promissora. As propostas apresentadas pelos agentes de imigração eram animadoras, mas a realidade encontrada aqui nem sempre correspondia às expectativas. Retornar à Itália era praticamente impossível, pois muitos haviam vendido tudo o que possuíam para custear a viagem. Além disso, enfrentar novamente mais de um mês de travessia marítima não era uma opção viável.

Diante das dificuldades, esses imigrantes trabalharam arduamente, superaram os desafios e construíram uma nova vida. Graças ao seu esforço e perseverança, deixaram um legado que permanece vivo até os dias de hoje, seja na culinária, na língua, nos costumes ou em tradições como o jogo da Mora. Enfim: Venceram!

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