FATTI & RACCONTI

A História de Ângelo Tomio

  

Nos dias de hoje, mudar de endereço por motivos de trabalho tornou-se algo comum. É possível trocar de cidade, de estado ou até de país com relativa facilidade. Em poucos minutos, por meio de um telefone celular, encontramos oportunidades de emprego em qualquer parte do mundo, pesquisamos informações, verificamos sua credibilidade e, caso necessário, retornamos para casa com a mesma facilidade.

Entretanto, essa realidade é muito recente. No século XIX, migrar significava romper praticamente todos os vínculos com a terra natal. A comunicação era lenta e limitada. As cartas, único meio de contato entre famílias separadas por grandes distâncias, levavam meses para chegar ao destino, quando chegavam.

Foi nesse contexto que milhares de italianos decidiram deixar sua pátria em busca de uma vida melhor. A pobreza, a falta de terras para cultivo e as dificuldades econômicas levaram muitas famílias a aceitar as promessas dos agentes de imigração enviados pelo governo brasileiro, interessados em povoar o Sul do país.

Esses agentes descobriram um Brasil próspero e fértil, exibindo cartas e relatos que retratam uma realidade muito diferente daquela que os imigrantes encontrariam. Sem meios para confirmar a veracidade dessas informações, muitos venderam tudo o que possuíam e embarcaram em uma longa viagem que, em geral, durava mais de trinta dias.

Ao chegarem, depararam-se com uma realidade dura e desafiadora: extensas áreas de mata fechada, doenças, animais selvagens, infraestrutura praticamente inexistente e inúmeras dificuldades para sobreviver. Não havia cidades estruturadas, estradas, hospitais ou igrejas. Retornar à Itália era inviável. Restava-lhes enfrentar os obstáculos com coragem, abrir clareiras, cultivar a terra e construir uma nova vida.

A história de Ângelo Tomio é o retrato dessa geração de pioneiros.

Ângelo Tomio nasceu em 14 de setembro de 1852, na pequena localidade de Revine Lago, província de Treviso, na região do Vêneto, Itália. Era filho de Domenico Tomio e Giovanna Tomio e foi batizado no mesmo dia de seu nascimento, na Paróquia de São Mateus Apóstolo, conforme o costume da época.

Desde cedo dedicou-se à agricultura, atividade que exerceu durante grande parte da vida. Aos 23 anos, em 23 de fevereiro de 1876, casou-se com Augusta Tomio, em sua cidade natal. O casal iniciou uma família que, poucos anos depois, tomaria a decisão mais importante de sua existência: deixar a Itália para recomeçar no Brasil.

No final de 1878, aos 26 anos, Ângelo e Augusta partiram rumo à América do Sul. Embarcaram no porto francês de Le Havre, a bordo do vapor Donati, que transportava cerca de 159 imigrantes italianos, além de poloneses e portugueses. Após uma longa travessia do Oceano Atlântico, chegaram ao Rio de Janeiro em 31 de dezembro de 1878 e, posteriormente, seguiram para a Colônia Ascurra, em Santa Catarina.

A escolha do porto de Le Havre, em vez de Gênova, provavelmente não foi por acaso. Os primeiros embarques realizados na Itália enfrentavam sérios problemas de organização, assistência médica e condições sanitárias, fatores que contribuem para elevado número de mortes durante a travessia. Já na viagem realizada pelo vapor Donati, não há registro de óbitos entre os passageiros.

Como milhares de outros imigrantes italianos, Ângelo encontrou no Vale do Itajaí a oportunidade de reconstruir sua vida. Instalou-se no lote nº 52 da colônia, retomou a atividade agrícola e participou da formação da comunidade que, anos mais tarde, daria origem ao município de Ascurra.

Ao lado de Augusta, constituiu uma numerosa família, com oito filhos: Maria (1879), Giovanni Giuseppe (1881), Ângelo Júnior (1887), Paulo (1891), Pedro (1892), Dosolina (1894), Angelina e Ana.

Os descendentes de Ângelo Tomio contribuíram significativamente para a expansão da família Tomio em Santa Catarina, tornando-se parte importante da história da imigração italiana na região.

Relatos preservados pelos familiares descrevem Ângelo como um homem de extraordinária força física, acostumado aos trabalhos mais pesados e orgulhoso de sua capacidade de trabalho. Também se sabe que passou seus últimos anos vivendo na casa do filho Paulo, com quem mantinha estreitos laços familiares.

No dia 25 de dezembro de 1914, data em que se celebrava o Natal, Ângelo Tomio faleceu em Ascurra, aos 62 anos, em decorrência de problemas pulmonares. Seu óbito foi registrado oficialmente em 1º de janeiro de 1915, e seu sepultamento ocorreu no cemitério municipal de Ascurra, onde também repousam sua esposa Augusta, o filho Paulo e a nora Ana.

A trajetória de Ângelo Tomio simboliza a história de milhares de imigrantes italianos que atravessaram o oceano movidos pela esperança de um futuro melhor. Com trabalho, coragem e perseverança, ajudou a desbravar uma nova terra, formou uma família numerosa e deixou um legado que permanece vivo por meio de seus descendentes e da memória da imigração italiana em Santa Catarina.

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