OPINIÃO

A Ética à Prova: Instituições não podem ser Feudos

  

A democracia brasileira atravessa um período de introspecção forçada, onde o cidadão comum, pagador de impostos e cumpridor de seus deveres, é confrontado diariamente com notícias que abalam os alicerces da confiança pública. O cenário atual, que coloca sob os refletores os escândalos envolvendo tanto a alta cúpula do Judiciário quanto o uso de estruturas estratégicas da Caixa Econômica Federal para beneficiar círculos íntimos do poder, exige mais do que indignação: exige o retorno absoluto ao império da lei.

O Parole sempre defendeu, de forma intransigente, a liberdade de expressão e o pensamento divergente. Contudo, essa liberdade só floresce onde a justiça é cega e a coisa pública é tratada com sacralidade. Quando nomes ligados ao Supremo Tribunal Federal (STF) — órgão que deveria ser o fiel da balança constitucional — veem-se emaranhados em suspeitas de favorecimento ou condutas éticas questionáveis, o equilíbrio de poderes é posto em xeque. Não se trata de interpretação criativa da norma, mas do cumprimento seco e direto do que dita a legislação vigente.

A crise de confiança que se abate sobre a nossa Suprema Corte não é um fenômeno de retórica política, mas um reflexo de atos que desafiam a liturgia do cargo. O magistrado, por definição, deve ser a personificação da imparcialidade. No entanto, o que o Brasil testemunha em 2026 é a consolidação de uma "justiça de proximidade", onde as relações pessoais, os jantares em capitais europeias e os elos entre julgadores e julgados criam uma névoa de suspeição que asfixia a segurança jurídica. Para o conservadorismo, a lei é o teto que nos protege da tirania; quando esse teto apresenta goteiras morais, toda a estrutura da casa está em risco. O ativismo judicial, outrora uma exceção, tornou-se a regra, transformando a Constituição em um organismo elástico, moldado conforme as conveniências do momento e os interesses das elites políticas.

A gravidade dos fatos se estende para além das togas e penetra no coração financeiro do Estado. O escândalo que agora atinge a Caixa Econômica Federal e a Embratur não é um erro administrativo menor, mas um sintoma do patrimonialismo que insiste em tratar o erário como uma conta bancária particular de amigos do rei. A denúncia de que cerca de R$12 milhões em recursos públicos foram direcionados a uma produtora cujos sócios possuem elos diretos com o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira, é um tapa na face da meritocracia brasileira.

Trata-se do caso envolvendo a produtora Macaco Gordo, de Francisco Kertész, sócio de Palmeira em outros empreendimentos. O conflito de interesses é solar. De um lado, temos o homem que controla toda a estratégia e verba de comunicação do governo federal; de outro, seu parceiro comercial sendo beneficiado por subcontratações milionárias via agências de publicidade que atendem estatais como a Caixa. Onde está o limite entre a prestação de serviço técnico e o favorecimento de aliados? No Brasil de hoje, parece que a resposta depende de quem está no poder.

Para um jornal de viés conservador e de direita como o Parole, o Estado deve ser o guardião da ordem e não o financiador de seus próprios propagandistas. O direcionamento de verbas públicas para empresas ligadas ao círculo íntimo da Secom é a negação do princípio da impessoalidade. Não podemos aceitar que o dinheiro do trabalhador, que sofre com juros e inflação, seja utilizado para sustentar uma rede de influência que confunde o bolso do sócio com o cofre da nação. A ética pública exige que quem está no poder se mantenha a uma distância segura e inquestionável de qualquer negócio que envolva o dinheiro do povo. A "higienização" que o Brasil precisa, começa pelo fim desse capitalismo de compadrio, onde o sucesso empresarial depende mais de uma mão amiga em Brasília do que da qualidade do serviço prestado.

A liberdade de pensamento, que tanto prezamos, vê-se ameaçada por esse ecossistema de dependência financeira. Quando o Estado utiliza instituições financeiras como a Caixa para irrigar produtoras e veículos amigos, ele está, na verdade, comprando o silêncio ou alugando o aplauso. O Parole reitera: a coisa pública é sacra. O uso de cargos estratégicos e verbas publicitárias para premiar sócios e parceiros de ministros é um retrocesso que nos remete às práticas mais sombrias da política brasileira, aquelas que o país acreditava ter superado.

A lei vigente no Brasil não é sugestiva; ela é imperativa. A Lei de Conflito de Interesses e os preceitos da Lei de Improbidade Administrativa não podem ser ignorados sob o pretexto de "conveniência técnica". Exigimos que as instâncias de controle, muitas vezes paralisadas pelo receio de retaliação política, cumpram seu papel. O Ministério Público e o Tribunal de Contas da União têm o dever moral e legal de passar um pente fino nesses contratos. A sociedade brasileira não aceita mais a narrativa de que "tudo está dentro da lei" quando a moralidade grita o contrário.

É necessário que as instituições voltem a ser pilares de estabilidade e não feudos de influência. O STF precisa resgatar sua credibilidade através da autocontenção e do respeito aos limites constitucionais, enquanto as estatais devem ser blindadas contra o aparelhamento político e o favorecimento de grupos empresariais "companheiros". O Brasil de 2026 exige seriedade. O cidadão que paga seus impostos quer ver seu dinheiro investido em infraestrutura, saúde e segurança, não em contratos que parecem desenhados para beneficiar o entorno do poder.

Nós continuaremos sendo o vigia desses valores. Não nos calaremos diante da promiscuidade entre o público e o privado, nem aceitaremos que a justiça seja usada como ferramenta de perseguição ou de proteção a castas. A liberdade só é plena onde a lei é igual para todos, do mais simples cidadão ao mais poderoso ministro. Enquanto houver instituições sendo tratadas como feudos, o Brasil estará longe de sua verdadeira vocação de grandeza. O império da lei deve prevalecer, doa a quem doer, pois sem ética, não há República; e sem República, não há futuro.

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