SEE JORNAISQuarta-feira, 14 de outubro de 2026Leia também: Cabeço Negro
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Espaço do Leitor

O homem cordial

Em 1936, Sergio Buarque de Holanda publicou um livro essencial à compreensão do caráter brasileiro. No seu “Raízes do Brasil”, o pai do Chico (como, lamentavelmente, o autor é hoje mais conhecido) Buarque de Holanda assinala a personalidade pacífica e solidária, que predomina (predominava?...) no jeito de ser brasileiro.

Na verdade, o Brasil é um raro País onde as transformações políticas, econômicas e sociais processaramse sem violência. Evoluímos do Império à República sem o custo do sangue nacional, o que confirma a tese firmada no “Raízes do Brasil”.

O que plasma o caráter nacional? Evidentemente que são as heranças culturais portuguesa, indígena e negra. São três povos intrinsecamente pacíficos. Deles herdamos a bonomia que caracterizava o povo brasileiro na época em que foi publicado o célebre livro.

Nasci em 1940. Tive uma infância lúdica, onde a rua, sem carros, era o nosso “Playground”. Ali, marcávamos com duas pedras o local da trave, e jogávamos futebol. Ali, esticávamos uma corda, de um lado para o outro, e disputávamos partidas de vôlei. Ali, armávamos uma “casinha” triangular com gravetos, e disputávamos os 24 pontos da partida de taco; ali, fazíamos rolar as bolinhas de gude. Ali, soltávamos pandorgas e pipas. A nossa rua era um grande jardim de infância!

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Nossas casas, sem tranca, eram a nossa segurança. Nossos vizinhos, sem TV, conversavam, na calçada, até altas horas. E o comerciante confiava nos compradores, assinalando-lhes, no caderno, as compras, a serem pagas no fim do mês.

Nossa escola ficava a uns dez quilômetros. Pequeninos, íamos a pé, sem medo de abusos e sequestros. Aquela vida era, realmente, a do brasileiro cordial, afetivo, solidário.

A violência, que entrou nas nossas ruas, veio de fora, impulsionada pela droga, que, também, veio de fora. Não é uma obra nacional; é importada de países que foram construídos à base de brutalidades, genocídios, guerras fraticidas.

Estamos sendo impregnados por essa violência estrangeira. Ela está nos filmes que assistimos. Sempre comparo a cena final do “High Noon”, o célebre filme de John Ford, que chegou a nós com o título “Matar ou Morrer”. Ele culmina com um duelo, em que o mocinho mata o bandido com um só tiro.

Hoje, os heróis acionam supermetralhadoras que matam milhares com uma só rajada; e canhões manuais que fazem ir para os ares tudo o que vem à sua frente.

A mesma metamorfose processou-se nos desenhos infantis. Antes eram os inocentes filmes da Disney, marcados por figuras doces como Branca de Neve e os Sete anões; ou pelas viagens mágicas de Peter Pan; e por figuras benfazejas como o Popeye, o Zé Carioca, o Mickey Mouse e o Pato Donald. Hoje, predominam personagens estranhas e violentas, em filmetes que levam as crianças à irritação e desobediência.

As cenas comuns de crimes, que a TV mostra todo o dia, expõe uma nova face do brasileiro, que é, no entanto, superficial. No fundo, contudo, o que ainda predomina é a cordialidade, marcada nos milhões que aclamaram o Papa Francisco, no Rio de Janeiro, durante o Festival da Juventude.

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