SEE JORNAISQuinta-feira, 15 de outubro de 2026Leia também: Cabeço Negro
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ARTIGO

Quando viver é um problema

Li esses dias uma belíssima matéria que abordava os resultados de um estudo chamado SC100, da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), sobre os centenários da Grande Florianópolis. O texto era muito bem escrito, mas revelava uma triste realidade: por conta do medo de se tornar um fardo para a família, a maioria dos velhinhos da pesquisa não quer mais viver.

O estudo mapeou 48 centenários na região, dos quais os 12 mais lúcidos responderam a pesquisa.

Embora fossem de diferentes classes sociais e hábitos, revelaram o medo comum de virar problema para a família.

Preferem morrer antes disso.

Essa constatação reflete a nossa cultura de desprezo aos idosos.Praticamente não há políticas públicas voltadas para essa faixa etária. A maioria dos idosos não vota, não é mesmo? Mas esse erro de percurso na nossa cultura e na nossa política social tende a criar um problema cada vez maior aqui no estado e em todo o país.

Temos a maior taxa de longevidade do Brasil, o que é um“bom problema”, pois reflete a qualidade de vida em Santa Catarina. Mas não basta viver. É preciso viver bem, até o último respiro. Se tudo der certo, nós também chegaremos a esse dilema: estaremos lúcidos, cientes do incômodo que causamos, mas sem condições físicas de nos mantermos sozinhos. Não é à toa que tantos idosos se deprimem.

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E não dá para crucificar a família. Filhos que precisam criar seus filhos e ao mesmo tempo manter seus pais. Não há espaços públicos apropriados para acolher esse público. O resultado são idosos que passam boa parte do tempo sozinhos ou que recebem pouca atenção em meio a tantos afazeres de suas famílias. Os que estão lúcidos sofrem mais, pois percebem que dão trabalho. Mas os que já não desfrutam da lucidez são as vítimas mais fáceis de abandono e maus tratos.

Algumas iniciativas que buscam amenizar o problema tramitam vagarosamente em nosso emaranhado burocrático. Existe o projeto do Fundo do Idoso, por meio do qual as pessoas poderão doar 6% do imposto de renda e as empresas 1% e, na Assembleia Legislativa, o projeto de lei para criação do Fundo para Assistência Social, para aumentar o orçamento equivalente a 0,33% da receita do governo estadual para1%. Mas nada ainda virou fato.

Enquanto isso há quase mil idosos na fila por uma vaga em instituições de longa permanência para idosos,asILPIs,quesóexistemem62 dos 295 municípios. Pouco mais de metade dessas clínicas possui convênios municipais. Os particulares chegam a cobrar mensalidades de até R$14 mil, de acordo com a reportagem. Em todo o Estado, só existe uma ILPI pública, em

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Caçador.

Os Centros Dia, que receberiam os idosos para participar de atividades em grupo até a noite, quando voltariam para o convívio familiar, são uma ótima ideia, mas que ainda não virou realidade. Está prevista a inauguração de apenas um centro desse tipo em todo o Estado.

Não é admissível que histórias tão longas terminem de forma tão triste. Essa precisa ser um desafio da sociedade, em especial dos próximos gestores públicos. Santa Catarina já conquistou indicadores que permitem vida longa, mas ela precisa ser digna.

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