SEE JORNAISQuinta-feira, 15 de outubro de 2026Leia também: Cabeço Negro
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ARTIGO

Política: nem pensar?

Dia desses eu aguardava o início de um evento político em Blumenau. Era a filiação de um amigo que vai se lançar candidato a deputado estadual. Jovem, família constituída, bem-sucedido na profissão, ele poderia continuar sua vida sem grandes turbulências. Mas resolveu que é hora de retribuir à sociedade as oportunidades que ele teve até agora. Trabalhar para ajudar quem mais precisa, dar um exemplo positivo para o filho, exercer sua cidadania. E acredita que a via política é a forma mais abrangente de alcançar esse objetivo.

Cheguei cedo e, enquanto aguardava do lado de fora do local marcado, uma senhora, dos seus 60 anos, se aproximou e perguntou o que estava para acontecer ali. Expliquei que era um evento político, em que um novo nome se colocaria à disposição para a próxima eleição. Mal pude terminar, fui interrompido por ela:“Ah, política não, nem pensar, tô fora!”. Me deu as costas e seguiu seu rumo.

Aquela ojeriza me deixou pensando no assunto nos dias que se seguiram. Essa rejeição está em todas as faixas etárias e classes sociais. É paradoxal que, quanto mais estejamos precisando transformar as pessoas e as ideias na política, menos aqueles que são diretamente atingidos queiram se envolver.

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Ora, ser humano é ser político! Desde sempre precisamos eleger, seja por que via fosse, alguém para nos representar em sociedade. Na escola, no condomínio, no clube, na igreja. Alguém que desse voz a um conjunto. É claro que não faltam àquela senhora motivos para estar desiludida, com raiva. Nos últimos anos e agora, essa semana,o Brasil mostrou que há muita coisa errada acontecendo e que os rumos precisam mudar urgentemente.Há problema sem todas as esferas e todos os poderes.

Mas poderia ser muito pior se não existisse democracia. E virar as costas, definitivamente não vai ajudar em nada.

Outra questão que caminha junto com essa rejeição à política, é a radicalização. São as pessoas que até participam politicamente, mas não estão abertas à discussão. Defendem e só querem enxergar o próprio ponto de vista. E daí vem a pola-rização. Tudo o que é diferente é ruim. Se perde a razão e a oportunidade de enriquecer o debate. De que adianta só se abrir ao que já sabemos, ao que já gostamos? São os pontos de vista diferentes dos nossos que ampliam nossos horizontes intelectuais. Mesmo quando não concordamos,devemos respeitar, ouvir, refletir e aí tirar nossas conclusões.

Tanto a alienação quanto a polarização são muito ruins para o nosso processo político. Elas restringem nosso olhar, nosso pensar. E aí está mais uma responsabilidade daqueles que ainda enxergam na política uma via para transformação do que está ruim. É um trabalho de formiguinha, como dizem, que exige paciência e persistência. Mais que puxar os assuntos políticos quando existe oportunidade, será sem-pre o exemplo que falará mais alto.

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Nesses dias de descrédito generalizado, quem quer ser leva doa sério n apolítica tem que ir muito além do discurso. Tem que ser político na sua essência, se interessar, ouvir, ser articulado, construir alianças em torno de ideias comuns. Em ano de eleição é preciso sim, renovar as esperanças. Novos nomes estarão à disposição do julgamento do eleitor. Mas se ele “nem pensar”,vai ser difícil mudar.

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