“Agricultura envelheceu. Esse é o risco”
Defesa por mais recursos aos municípios foi a tônica do seminário promovido pela Adjori/SC e Fiesc

O presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Santa Catarina (Fetaesc), José Walter Dresch, nasceu em 1956, no Rio Grande do Sul. Um ano após o seu nascimento, sua família mudou-se para São Miguel do Oeste, em Santa Catarina. Desde jovem, atuou em movimentos ligados às reivindicações do setor agrícola. Em 1989, assumiu a presidência do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de São Miguel do Oeste, de onde saiu para assumir a presidência da Fetaesc, em 2000. Quando deixar o sindicalismo, diz ele, pretende retomar suas atividades como agricultor.
Dresch conversou com a Agência Adjori de Jornalismo sobre os rumos da produção rural em Santa Catarina, que envolve cerca de 188 mil famílias. Com menos de 2% do território nacional, o Estado se destaca como grande produtor de milho, cebola, alho, trigo e maçã, entre outras culturas.
Adjori – Como o senhor avalia a questão polêmica do trabalho infantil nas propriedades rurais?
Dresch - Essa também é uma questão que precisa ser aprofundada. Temos que diferenciar o que é um jovem agricultor, que poderá aprender a profissão do pai, daquilo que é caracterizado como exploração do trabalho infantil. O jovem deve, sim, estudar, ter seus momentos de lazer. É importante desmistificar essa questão de trabalho. Trabalhar não é um castigo. É, sim, uma oportunidade. Existe uma distorção muito grande quando são misturadas as realidades de diferentes regiões do Brasil. Por exemplo, no Norte e Nordeste, com a produção do carvão, de fato se explora a mão de obra infantil. Não é o que acontece com a agricultura familiar na região Sul, que faz a aprendizagem de um jovem entre 13 e 14 anos. Eu comecei a trabalhar na agricultura com nove anos, levando água para quem estava na roça. Se tenho algum problema de saúde, não veio do trabalho. Não acredito que tenha um pai, em sã consciência, que vai fazer um filho desempenhar uma atividade além da sua capacidade. Se for assim, é o pai que está com problema. Aí é ele quem precisa de tratamento.
Adjori - Fazendo uma análise da permanência do jovem no meio rural, o cenário é positivo ou negativo?
Dresch - A agricultura envelheceu. A faixa etária média dos agricultores familiares está, hoje, entre 45 e 50 anos. Esse é o grande risco. Temos muito mais jovens saindo do que assumindo as propriedades rurais, e isso assusta.
Porém, evoluímos bastante no preparo profissional dos jovens agricultores. O resultado está sendo melhor. Quando fui jovem e agricultor, não tínhamos nenhuma das condições que se tem hoje. Só havia duas opções: ou ser agricultor, ou ser agricultor. Hoje, temos agricultores por opção, e não mais por imposição das circunstâncias. A demanda que o mundo espera ter na produção de alimentos gera esperança ao setor agrícola, inclusive com o retorno de alguns jovens para o campo.
Adjori - Como são desenvolvidas as ações de capacitação do trabalhador rural?
Dresch - Temos várias organizações – cooperativas, federações, sindicatos – fazendo essa capacitação e buscando recursos para novas ações. Mas é preciso mais. Além do conhecimento, o agricultor precisa de ferramentas. Tem que ter um equipamento lá na propriedade, com internet, que tenha condições de escanear uma folha que esteja com ferrugem e mandar para o técnico (que está na cidade) resolver o problema. Na Saúde, ainda falta bastante. O agricultor precisa de um atendimento mais qualificado. E para ele não ter problema de saúde ele precisa de orientações sobre prevenção.
Adjori – Qual a posição da entidade sobre a questão indígena?
Dresch - O certo é que temos uma dívida com os índios. Temos isso claro. Os índios são seres humanos e precisam ser tratados como tais. Agora, certas entidades, que dizem representar os índios, não podem radicalizar a posição, dando a enten der que agricultor é bandido. Nem agricultor nem índio são bandidos. Existem organizações que estão se valendo do desconhecimento dos próprios indígenas. Agricultor e índio, ambos estão se entendendo. Agricul tor e Funai não se entendem. Muitas vezes, nem índio e Funai se enten dem.
Adjori: Algum exemplo disso?
Dresch: Nos municípios de Saudades, Pinhalzinho, Cunha Porã, onde existem possíveis áreas indígenas demarcadas, existem também cerca de 170 famílias que estão lá há mais de 100 anos, com mais de 200 aviários construídos. Agora, querem expulsar essas famílias para colocar 32 famílias de índios. O Governo do Estado comprou uma área de terra num outro município e a Funai não aceita. Que brincadeira é essa? Será que são os índios realmente que não querem ou é a Funai que não quer? Os que estão falando pelos índios, não sei se conhecem os índios, mas tenho certeza de que não conhecem agricultura familiar.
Adjori – O senhor vê alternativas para estes problemas?
Dresch - De fato, temos é que dar oportunidade para o índio ocupar o seu espaço enquanto indígena. E temos que nos desculpar por aquilo que foi feito de injustiça contra esse povo no passado. Posso afirmar que lá em Saudades e Cunha Porã, e nas outras regiões onde estão sendo propostas demarcações indígenas, com as poucas famílias de índios, que são muito menos do que estão dizendo, a relação é boa. Os índios dizem: queremos um pedaço de terra, não queremos confusão com ninguém.
Adjori: E qual o papel da Funai?
Dresch: A Funai em vários momentos está metendo os pés pelas mãos. E acho que não é esse o caminho. E aí a entidade se vale daqueles que não conhecem a realidade e provoca uma verdadeira guerra entre índios e não-índios, que não precisava acontecer. Dá para conviver tranquilamente, desde que alguém não queira defender única e exclusivamente interesses próprios. A Fetaesc é contra isso, defendemos as causas que interessam à sociedade, ao conjunto, onde todos se sintam parte do processo. Essa questão é que precisa ficar clara para a sociedade: há possibilidades, sim, de viver em harmonia, desde que cada um respeite seu espaço.
Adjori: Quanto às demarcações?
Dresch: Os agricultores estão inseguros. Praticamente todos os dias tem alguém fazendo vistoria nas áreas, dizendo que está sendo demarcado. Mudam os marcos pra cá, pra lá, dizendo: 'você vai perder sua propriedade'. Ali tem uma história. É a quarta geração que está vivendo naquele lugar. Tem uma igreja, tem um cemitério, onde os entes estão sepultados há mais de 70 anos. E aí temos famílias de agricultores que questionam o fato de terem de sair sem olhar para trás, sem jamais poder voltar.
Com informações da Agência Adjori de Jornalismo / Rede Catarinense de Notícias. Texto revisado pela redação.







